Tibet: onde o céu é mais azul e o coração bate mais forte

Postado por:
em: 07/07/2015
Categoria(s): grandes destinos, Slideshow

Por Silvia Citelli

Palácio de Verão

Palácio de Verão – Foto: Silvia Citelli

Confesso que não foi fácil escrever essa matéria. Nunca, em um país, senti tantas emoções: revolta, paixão e outros sentimentos que não sei explicar… Um espetáculo diante dos olhos, uma beleza natural circundada por montanhas de picos sem fim, a indignação de uma vida de repressão, a aprendizagem de histórias milenares, são vivências que só o Tibet pode proporcionar. Esse exagero de sentidos levou um tempo para ser processado, mas um gostinho de quero mais permaneceu no coração.

 

Praça Bakhor

Praça Bakhor – Foto: Silvia Citelli

 

 

A minha opção foi voar de Kathmandu para Lhasa – apenas três voos semanais. O voo é incrível, pois atravessa a grandiosa cadeia de montanhas dos Himalaias, os picos nevados chegam tão próximos do avião que dá vontade de pular ali mesmo, e é emocionante quando o piloto anuncia: “Senhores, Mt Evereste a sua direita!” A aterrisagem em Lhasa dá um frio na barriga, já que a pista demora a aparecer dentre as áridas montanhas da região, mas assim que o avião toca o chão, a inquietação surge em nossas mentes, como reagirei estando no topo do mundo?

Monte Everest

Monte Everest – Foto: Silvia Citelli

 

A imigração é tranquila para quem tem a permissão de entrada, que para brasileiros é obrigatória e pode ser retirada, através da Interpoint, antes da chegada ao país. Na saída do aeroporto, vejo o mais brilhante e intenso azul que um céu poderia oferecer e o guia que me acompanhará por toda a estadia, me saúda em Tibetano colocando um Khatag no meu pescoço, um lenço branco muito utilizado em cerimonias para reverenciar os lamas, os budas e as estátuas santas. O branco representa sinceridade, bondade, justiça, pureza e prosperidade, e posso dizer através desse simbolismo, que os Tibetanos têm a alma e o espirito branco.

 

Lhasa fica a 3.650 metros acima do nível do mar, sendo inevitável não sentir a altitude já no caminho do aeroporto para o hotel (cerca de 50min). De imediato sente-se dor de cabeça, mas cada corpo reage de uma forma. A dica principal é difícil para os brasileiros – não tomar banho no dia da chegada! Isso porque a água quente estimula ainda mais a corrente sanguínea, mudando a pressão do corpo e piorando a adaptação. A explicação foi dada pelo nosso experiente guia, e seguimos ao pé da letra, acordando muito bem no dia seguinte.

 

Indico ficar em um hotel bacana, já que tudo que você viverá nesse pais será extremamente intenso, sendo reconfortante chegar no final do dia a um lugar aconchegante, onde será possível processar tudo o que foi visto e sentido. O Hotel Shangri-la é uma ótima opção, tem vista para o gigante Potala Palace, antiga residência dos Dalai Lamas, quartos superconfortáveis, café da manhã que é um verdadeiro banquete e ainda possui conveniente sala de oxigênio, SPA, piscina e três restaurantes.

Shangri-La Hotel, Lhasa

Shangri-La Hotel, Lhasa – Foto: Silvia Citelli

 

Shangri-La Hotel, Lhasa

Shangri-La Hotel, Lhasa – Foto: Silvia Citelli

 

O Tibet é basicamente dividido em dois períodos, antes da invasão Chinesa em 1950, conhecido como o Tibet Antigo e após a invasão, o “novo” Tibet. Em 1950, os chineses expulsaram a maior santidade, crença e força política do país, sua Vossa Senhoria Dalai Lama, que fugiu para a Índia sem outra opção, e nunca mais retornou. Durante a invasão muitos tibetanos fugiram e um dos fatos mais tristes é que os que ficaram não podem mais sair, e os que saíram não podem mais entrar. Portanto muitas famílias foram separadas para sempre.

 

Lhasa possui cinco locais incríveis:

 

O palácio de verão foi construído pelos monges em homenagem ao 14o e atual Dalai Lama. Um local sagrado utilizado para meditação e estudo. Possui belíssimos jardins e templos, que acomodam livros, originais dos séculos IV e V. Os volumes são cuidadosamente embalados um a um em delicados tecidos feitos a mão e é impressionante como as cores das escritas – em Sanscrito – redigidas em ouro, coral e prata, ainda são tão intensas.

 

Palácio de Verão

Palácio de Verão – Foto: Silvia Citelli

 

 

Daqui, fugiu Dalai Lama em seu cavalo, camuflado com vestimentas que não lhe pertenciam, até o sagrado rio Tsangpo, um dos principais e mais importantes do Tibet, onde embarcou em uma jornada, sem volta, até a Índia. Nesse dia, ele ia ao encontro dos oficiais Chineses para uma possível conversa, o que muitos acreditam, seria uma emboscada. Um dos maiores sofrimentos do Tibetano é não poder ver o Dalai Lama pessoalmente. Acredita-se que se em duas reencarnações, não ficarem frente a frente com a santidade, terão má sorte para o resto da vida. Nosso guia, tristemente, conta essa história, mas diz que ainda tem alguma esperança em vê-lo.

Palácio de Verão

Palácio de Verão – Foto: Silvia Citelli

 

 

Outro local magnifico é o templo Jokhang, localizado no centro de Lhasa, na praça Bakhor. Trata-se simplesmente do primeiro templo tibetano construído no sec. VII pelo Rei Songtsen Gampo. Uma arquitetura sábia e perfeita em tempos onde não existiam computadores, maquinas ou qualquer tecnologia. No telhado, pequenos pedaços de madeira permitem a corrente de ar, e evitam os tremores de terra. O chão brilhante, não contém marcas do tempo, nem sequer uma rachadura. Eram feitos com pedras preciosas e minério, coisas de qualidade, como assegura o guia. Dentro das salas, (onde não são permitidas fotos) desenhos em tecidos, conhecidos como Tanga se estendem pelas paredes. Os bancos baixos cobertos apenas com almofadas vermelhas, são sempre virados para o rico altar, em que se acomodam diversas imagens sagradas. Além de muitas velas que têm como base a manteiga de Yak. São constantes doações de manteiga aos templos e seu forte cheiro impregna as narinas e as roupas do corpo.

 

Templo Jokhang – Foto: Silvia Citelli

O terceiro lugar de grande beleza é o monastério de Drepung, antiga residência dos Dalai Lamas. São diversos prédios com suas inabaláveis construções, escadarias, ruelas, e uma vista linda; parece uma vila medieval, simplesmente apaixonante.

 

 

Monastério de Drepung

Monastério de Drepung – Foto: Silvia Citelli

 

Monastério de Drepung

Monastério de Drepung – Foto: Silvia Citelli

Outro monastério famoso é o Sara, onde viviam cerca de 8.000 monges e que, hoje, acomoda apenas os 370 que restaram pós-invasão chinesa. O local serve, até hoje, como uma universidade para os monges que se reúnem para debater, nos jardins, diariamente, a filosofia budista.

 

Sara Monastério

Sara Monastério – Foto: Silvia Citelli

 

Por fim, o grandioso e imponente Potala Palace, patrimônio da Unesco. Edifício construído no Séc VII, levou dezessete anos para ficar pronto e tem cerca de mil salas com mais de seiscentos murais pintados a mão contando a história do Tibet. Uma fortaleza com paredes extremamente grossasum verdadeiro museu. As sepulturas dos antigos Dalai Lamas, que lá permanecem, pesam toneladas em ouro maciço e são cobertas de joias preciosas. Grande parte dessa riqueza descomunal era doada pela população local.

 

Potala Palace

Potala Palace – Foto: Silvia Citelli

 

Aliás, os tibetanos são pródigos em fazer doações, por mais simples que sejam, estão sempre carregando suas garrafas térmicas com manteiga, alimentos e ouro para pintarem as estátuas dos monastérios. Um povo que nunca teve qualquer contato com o mundo exterior, não tem acesso à TV, internet ou rádio e que, portanto, nos olham curiosos, um olhar quase infantil, como se fossemos de outro planeta.

 

Praça Bakhor

Praça Bakhor – Foto: Silvia Citelli

 

A religião é o que rege a vida dessas pessoas e as histórias são as mais belas. Eles acreditam, por exemplo, em reencarnação e, portanto, todos os seres vivos podem ser o que um dia chamamos de pai, mãe, irmão. Com isso, eles evitam ao máximo comer carne. Mas comem, focando basicamente no conhecido animal local, o Yak, parecido com um búfalo enorme. Um Yak alimenta varias pessoas, enquanto um frango alimenta apenas uma. Seguindo essa lógica, os tibetanos não comem animais pequenos, nem os que possuem a arcada dentaria superior, pois se parecem muito com o humano. O Dalai Lama sempre pede que seus discípulos comam carne apenas uma vez por dia e que o façam cada vez menos.

 

Rodas de Oração

Rodas de Oração – Foto: Silvia Citelli

 

 

Os tibetanos quando morrem realizam duas cerimonias, não muito agradáveis de imaginar: ou eles cortam o corpo em pequenos pedaços e jogam no rio para alimentar os peixes, ou cortam o corpo no alto das montanhas e dão de comida para os pássaros. Com isso, também não comem peixe já que esses animais contêm “impurezas” que não fazem bem a saúde.

 

Os habitantes do Tibet levam a crença como estilo de vida, é fácil encontrar centenas de pessoas andando em volta dos templos – chegam a andar 5km – carregando suas rodas de reza que giram sem parar. Ou mesmo, fazendo prostrações em que levantam e deitam no chão algumas centenas de vezes.

 

Praça Bakhor - arredores

Praça Bakhor – arredores – Foto: Silvia Citelli

 

É impossível, colocar tudo que vi e experimentei em um texto curto como este, por isso, terão que conferir pessoalmente. Recomendo aos que realizarem esta viagem não deixem de provar os pratos típicos da região, sobretudo o momo, parecido com uma guioza. Peça um guia tibetano de origem, com certeza ele será seu maior confidente e amigo, derrame lágrimas quando se despedir dele, será inevitável, fique boquiaberta com a quantidade de ouro que verá, e abra seu coração para a mais bela vivência de suas vidas.

 

Se ainda houver pique, no último dia da viagem, faça um tour para a cidade de Tsedang, – onde tudo começou – e visite a primeira construção do Tibet, o templo Yongbulakhang, um local com a energia que só o topo do mundo poderia ter. Chegando lá, reserve alguns minutos para meditar diante de toda a beleza natural, com o sussurrar do vento e cercado pela paz do universo.

 

Templo Yongbulakhang, em Tsedang

Templo Yongbulakhang, em Tsedang – Foto: Silvia Citelli